Campeonato do Mundo de Corta-Mato 1985

Mais uma vez Mamede era favorito ao ouro. Em Lisboa, no Jamor acreditava-se que finalmente, era chegada a hora de Mamede ultrapassar o trauma das grandes competições. Três semanas antes, Mamede ganhou o Nacional de Corta-Mato, Lopes ficou a mais de 50 segundos do vencedor, parecia arrumado. " ficar a 50 e tal segundos do primeiro classificado não deixa muita margem para se pensar numa vitória no Mundial. mesmo que consiga melhorar muito, nunca será para vencer. No Atletismo não há milagres."
Antes da partida insistia em esconder as ambições: " Isto vai ser ... o que for. Mas, pelo menos hoje, não estou voltado para o sacrifício. Se der para o torto, marcho...vamos ver como se portam as pernas."
  No dia da corrida almoçou em casa. O almoço? " O trivial, bife com batatas fritas, vinho tinto do Dão café à sobremesa".
Lopes partiu cautelosamente, em pezinhos de lã , chegou-se à frente, desfez o contingente africano e ganhou de forma imperial. " Nunca esperei ganhar, isto para mim foi quase um milagre, foi a despedida em beleza, nunca mais voltarei a vestir a camisola da selecção Nacional". Aos 38 anos, Lopes conquistava o seu terceiro título de campeão do Mundo de Corta-Mato.
     

Campeonato do Mundo de Corta-Mato 1985
Lisboa

1º Carlos Lopes(Por).......33.33
2º Paul Kipkoech(Ken).....33.37
3º Wojado Bulti(Eti)..........33.38

  Nas bancadas o Presidente da República assiste, sorridente, a mais esta vitória prestigiante de Lopes. A caminho da sala de control anti-doping é chamado, para atender o telefonema de felicitações do Primeiro-Ministro, Mário Soares


Maratona de Roterdão- Record do Mundo- 1985

Menos de um mês depois de se ter sagrado campeão do Mundo de Corta-Mato, num sinal de que não havia incompatibilidade de preparação, bateu o record do Mundo da Maratona, tornando-se o primeiro homem a correr os 42.195 metros em menos de 2 horas e 8 minutos. Na pista, no Cross e na Estrada, Lopes é sempre capaz de realizar os maiores feitos. No final da prova Carlos Lopes desabafou: "Sinto-me satisfeito, Pena foi não ter tido ajuda". As lebres contratadas pela organização não aguentaram, aos 20 quilómetros Lopes já estava sozinho. "Tive de gramar mais de metade da prova a correr sozinho e, quando cheguei ao fim, tinha o record batido, assunto arrumado."
  "Nos últimos quilómetros estive em dificuldade, cheguei a pensar que o que interessava já só era assegurar a vitória e que o record passasse muito bem. Felizmente recompus-me, mas, de verdade, estive um bocadinho aflito. Consegui, enfim, o record do mundo que faltava no meu palmarès."

Esta vitória teve grande impacto na imprensa internacional, o L'Équipe referia: " Fantástico! Extraordinário! Não existem palavras suficientemente fortes para classificar a proeza de Carlos Lopes, em Roterdão. Em menos de três anos, tornou-se o primeiro homem a aproximar-se do irreal. Quem poderia pensar, há 20 anos, que um homem pudesse correr a Maratona a vinte quilómetros por hora?
Um jornal de Roterdão referia: " Com a magia do seu talento, Carlos Lopes retirou 54 segundos ao anterior máximo mundial. Com a sua fabulosa cadência chegou ao record do Mundo com aparente facilidade. Diz-se que recebeu 25 mil contos só para vir a Roterdão , e mais 11 mil contos de prémios. Muito dinheiro para um homem só. Mas, no mundo fantástico das maratonas, apenas um atleta, de 38 anos, é capaz de correr a prova em 2 horas, sete minutos e onze segundos: Carlos Lopes."

Maratona de Roterdão 1985
Record do Mundo

1º Carlos Lopes(Por)......2.07.11
2º John Graham(Ing).....2.09.58
3º Cor Lambregts(Hol)...2.11.02

  Nos corredores secretos do nosso atletismo corriam rumores de que só em 1984 e 1985, Lopes arrecadara 75 mil contos. " Que pena não ser verdade! Ganhei na justa medida do meu mérito. Só em 1983 comecei a ganhar coisa que se visse. Fui quase sempre um atleta de saldos, quando deixei o Sporting (para o Imortal de Albufeira), já depois de ser campeão Olímpico, ganhava 100 contos de subsídio. sempre fui Sportinguista de coração e assim hei-de morrer, não me sentiria bem exigindo mundos e fundos ao meu clube."


Após a maratona de Roterdão, Carlos Lopes deslocou-se ao Japão para correr a Maratona Tóquio e assim prestar tributo ao mestre Koboyashi, o homem que lhe deu a segunda vida, como atleta. Estava fora de forma, teve que desistir aos dezanove quilómetros. Seria a sua última maratona. No final de 1985, já com a camisola do Imortal de Albufeira correu a São Silvestre da Amadora, voltou às vitórias. Pouco depois lesionou-se e despediu-se do Atletismo.

Carlos Lopes

Mais do que ser primeiro
Heroi é quem
Sabe dar-se inteiro
E dentro de si mesmo ir mais além

Manuel Alegre

 


Biografia: ABola.