Carlos Alberto de Sousa Lopes nasceu em 1947, em Vildemoinhos, uma pequena aldeia próxima de Viseu. Começou a trabalhar depois de ter concluido a quarta classe, para ajudar no sustento da casa. Começou com servente de pedreiro, depois, foi marçano, relojoeiro e serralheiro. Carlos sonhava ser jogador de futebol no Lusitano de Vildemoinhos mas, a oposição do pai e de algumas pessoas ligadas ao clube (achavam-no muito franzino) não lhe permitiram concretizar esse sonho. Virou-se para o atletismo...
O atletismo surgiria por acaso, em 1966: "Um dia, alta madrugada, noite cerrada, saímos de um bailarico e por entre a escuridão dos pinheiros, o uivo do vento fez o rapazio enyrar em pânico, parecia que vinha alguém atrás de nós. Fui o primeiro a chegar a Vildemoinhos. No grupo de foliões havia três rapazes que vendiam jornais e que já tinham a mania das corridas a pé. Foi um deles que sugeriu a criação de uma equipa de atletismo no Lusitano. Para me inscrever, falsifiquei a assinatura do meu pai, não fosse ele achar que eu também não tinha cabedal para correr. Depois de tudo oficializado, fizemos um treino de vinte quilómetros. Uma maluquice! Depois de arrefecer fiquei como que bloqueado, mal me podia mexer. Andei três dias agarrado às paredes, sofrendo, sofrendo...Mas isso não me desmotivou. A primeira prova do Lusitano foi em lamego, em Novembro de 1966, devido a uma queimadura num pé tive que ficar em casa.
Em Dezembro, na São Silvestre de Viseu, estreei-me oficialmente. Por portas e travessas o meu pai já sabia. Ao jantar não disse nada, apesar de lhe notar cara de caso. Fui para a corrida, fiquei em segundo lugar, regressei a casa com a medalha ao peito, todo satisfeito, e em vez de rosto fechado encontrei alegria. O meu pai já sabia que eu fora segundo. Duas semanas depois fui campeão de Viseu e, logo a seguir fui terceiro no campeonato nacional de Corta-mato, em juniores, sendo seleccionado para disputar o Cross das Nações, em Rabat... Fui o melhor português, em 25º lugar. Foi nessa altura, com 17 anos, que pela primeira vez vi o Mar."

  Em 1967, surgiu-lhe em casa um emissário do Sporting. Era o sonho à beira de realizar-se. Já em Lisboa sofre a primeira desilusão, o prometido emprego de torneiro-mecânico, transformara-se em serralheiro numa pequena oficina. Manteve-se como serralheiro até ir para a tropa. Depois de cumprir o serviço militar ( em Lisboa ) dedspediu-se da serralharia e foi trabalhar para o " Diário Popular", como contínuo. Pouco depois passou para empregado bancário no Crédito Predial. Mais tarde trabalharia no BPA.

As Vitórias do Nosso Contentamento

1976 - Campeonato do Mundo de Corta-mato

Com o 25 de Abril de 74, Moniz Pereira conseguiu convencer os políticos a apostar no Atletismo de alta competição. Em 1975 os melhores atletas portugeses passaram a treinar duas vezes por dia, sendo dispensados dos seus empregos na parte da manhã. O banco onde trabalhava pasou a dispensar o Lopes para que pudesse treinar durante a manhã. Os resultados não tardaram a aparecer...
Para o Campeonato do Mundo de Corta-mato realizado em Chepstown (País de Gales) Lopes carregava, escondida, uma grande esperança de vitória. Moniz Pereira, no entanto, deixava escapar " As instruções são no sentido de Carlos Lopes dar o máximo na marcação a Haro e Black, não os deixando fugir. Se o conseguir fazer terá muitas hipóteses de vir a ser o vencedor, pois como sprinter é superior a qualquer deles."
  A corrida acabou por ser mais fácil do que o esperado: " Um triunfo assim acontece uma vez na vida. Eu arranquei só para experimentar os adversários, não tinha ideias de sair mesmo naquela altura, pretendi apenas impor o andamento que mais me convinha, porque tinha a certeza de que não poderia esperar pela última volta para resolver a corrida. Apercebi-me de que, nas subidas, tanto os dois ingleses como o belga fraquejavam um pouco, acelerei e..."
Não seguiu a táctica prevista por Moniz Pereira porque: " Quando entro numa prova não tenho instruções. Os que estão de fora não podem mandar e dizer que a determinada altura temos de fazer isto ou aquilo. Quem manda é o atleta porque é ele que sabe como se sente. Ora, eu sentia-me bem, e depois, uma pessoa, quando vai à frente, as forças redobram. Eles foram ingénuos, pensaram que eu não aguentaria o andamento que impus a partir do 6º Km."
No jornal L'Équipe do dia seguinte podia ler-se: " Indiferente, soberbo, atleta de busto ligeiro e pernas de puro-sangue, Carlos Lopes parecia um cavaleiro solitário, tendo inscrito na fronte a certeza da sua superioridade."

Campeonato do Mundo de Corta-Mato 1976

1º Carlos Lopes(Por)..........34.48
2º Anthony Simons(Ing)......35.04
3º Bernard Ford(Ing)...........35.08
  Carlos lopes regressou a Portugal como um herói. O secretário de Estado dos desportos refere: " Agradeço a Carlos Lopes o que fez pela juventude do nosso país. Impressionou-me mais a maneira como ganhou que o ter ganho."
Moniz Pereira exaltou o feito: " Mais de 200 milhões de pessoas viram o seu triunfo, em directo pela TV. Por isso, em meia hora, Carlos Lopes fez mais pelo País que o SNI (propaganda do estado novo) em todos os anos da sua existência."

1976 - Jogos Olímpicos de Montreal

 
Na eliminatória dos 10 000 metros Lopes ganhou como quis, dando a sensação de que poderia vencer a final. Para a final, a táctica era simples, como revela Moniz Pereira " Forçar o andamento até ao limite e das duas uma: ou rebenta ele ou rebentam os outros." Só não rebentou Lasse Viren, que na recta final ultrapassou Lopes. Carlos Lopes sabia que Viren costumava aparecer em grande forma nas competições mais importantes.

Sabia também que Viren tinha uma ponta final poderosa: " Ele fez a corrida como entendeu que deveria fazer. Se eu tivesse a ponta final que ele tem, se calhar faria o mesmo. Andei sempre na frente a puxar, porque esse é o meu espírito. quando conduzo a corrida não é para ganhar, é para não perder, porque o que tenho que fazer é afastar os outros, ir dando cabo deles." As condições de treino dos dois atletas eram completamente diferentes: Viren tinha passado o inverno a treinar na Colômbia e na primavera deslocara-se para o Quénia; Lopes tinha que treinar e simultanemente trabalhar no banco.
  Viren para além da prova de 10 000 ganhou também os 5 000 metros e sobre ele recairam as suspeitas do uso de doping. Na conferência de imprensa realizada no final da prova de 10 000 perguntaram-lhe se tomava drogas, ao que ele respondeu, que a única coisa que tomava era leite de Rena. A partir daí a imprensa não o pupou, acabando por denunciar que ele se dopava de uma forma impossível de ser detectada nas análises. Falava-se de doping sanguíneo. Reza a história que em meses antes do início de uma prova que considerava fundamental para a sua carreira, era-lhe extraída uma certa quantidade de sangue, que era congelado e um dia antes da prova seria novamente injectado no corpo. Esta operação, permitiria um ganho de 30% no seu rendimento. O finlandês negou sempre tudo e provas também nunca houve.
Viren era um atleta muito profissional, tinha óptimas condições de treino e planeava todos os seus actos, quando cortou a meta descalçou-se e levantou bem alto os ténis, mostrando explicitamente a marca dos mesmos. Uma atitude muito criticada na altura mas perfeitamente aceitável nos dias de hoje.

Jogos Olímpicos de Montreal 1976
10 000 metros
1º Lasse Viren (Fin)............27.40,38
2º Carlos Lopes(Por)..........27.45,17
3º Bredan Foster(Ing)...........27.58,12
  " É grande o peso da medalha. Exige cada vez mais sacrifícios e as compensações são pequenas."
" Mas estou feliz, muito feliz, com esta medalha de prata, não tanto por mim, mais pelo professor Moniz Pereira."


1977 - Campeonato do Munto de Corta-Mato

Partiu para Dusseldorf para defender o título de campeão do Mundo, mas foi "apenas" vice-campeão. " Não vinha com a convicção de que ganharia. Nem sequer me sentia nessa obrigação.


Campeonato do Mundo de Corta-Mato 1977

1º Léon Schots(Bel)...................37.43
2º Carlos Lopes(Por)..................37.48
3º Detlef Ulhemann(RFA)..........37.52
  Tentei defender o título com unhas e dentes, sabia o que me esperava, algum tempo antes tinha perdido com o Schots em França. Joguei as minhas armas, ficámos ambos na frente, tudo dependeria de mim e do Schots, fiz a minha corrida, ele fez a dele, ganhou, só tenho que felicitá-lo. A sua ponta final é demoníaca, não consegui libertar-me dele, nos últimos metros desinteressei-me na certeza de que a vitória era dele. Mas um campeão só o é se ganhar sempre?"


Período difícil - as lesões

Após Dusseldorf, o suplício das lesões: " Nesse período negro, o que mais me custou foi não poder participar nos Jogos Olímpicos de Moscovo. Se não fossem as lesões, não teria boicotado as Olimpíadas, sempre achei que política e desporto não podiam ser misturados. Em 1979 houve logo quem se apressasse a assinar a minha certidão de óbito como atleta.Senti-me umilhado com as palavras de alguns senhores que me preparavam o funeral e me consideravam uma espécie de velho inútil." De 1977 a 1982 foram quase 5 anos de angústias: " Por essa altura até Moniz Pereira deixou de acreditar muito em mim, parecia mais interessado em pedir-me, logo que as dores amainavam, que corresse pelo Sporting, que ajudasse o clube a ganhar campeonatos e taças dos Campeões Europeus."
Mas, aos poucos dava sinais de recuperação: " Recuperei graças ao empenho e carinho do mestre Koboyashy. Um milagre da acupunctura, quando já ninguém dava nada por mim. Foi ele que me curou e me deu confiança para o futuro."